sexta-feira, 10 de junho de 2011

João, o menino que não sabia escarrar.

Toda vez que João ficava gripado e o catarro começava a escorrer pra perto da boca, era um tormento. Às vezes nem dava tempo de puxar de volta e na boca mesmo o catarro entrava. Descia como de fosse suco de caixinha industrializado e nem precisava de canudo. Conforme ia piorando e o catarro aumentando, mais tenso e preocupado João ficava. Na escola todo mundo dava risada. A professora nem no menino tocava, João sentava no fundo do canto da sala. Até que certo dia, João, cansado de tanta agonia, resolve a aprender a escarrar. Escarrar fazendo barulho, como o pai fazia. Prestou atenção como funcionava. Quando o pai ia escarrar toda ora João olhava. E desse dia em diante, João com o catarro já não se incomodava. Na escola ganhou fama e status de campeão. João é agora é chamado de João Escarrão.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sarney e o direito à memória

Escrever sobre certas personagens da política nacional não é muito a idéia deste blog, pelo menos não diretamente. Tem blogs mais interessantes especializado na área. Mas, devida as introduções destes senhores no mundo das artes e das exposições, contribuindo assim para o crescimento cultural do nosso país, aqui estou, tentando entender o que se passa.

Na última segunda-feira,  José Sarney (museólogo, curador e também senador) inaugurou uma exposição no que chamam de Túnel do Tempo do senado nacional, sobre os olhares de alguns alunos de ensino médio e da imprensa tupiniquim. Segundo consta, o tal túnel foi concebido para enaltecer o ego da própria casa, onde eles mesmos elegem de fato, os fatos mais importantes da mesma.

Dentro desta concepção, alguns homens de microfone nas mãos se deram conta de que na exposição faltavam, digamos, algumas partes da história do Brasil. E não era um fato de difícil acesso, arquivo queimados, fotos destruidas de pessoas sendo executadas dentros dos quartéis do exército durante a ditadura, etc. Não! Eram fatos mais recentes. Como por exemplo, a lei da ficha limpa, que colocaria até mesmo o próprio José Sarney (museólogo, curador e também senador) na cadeia.

Mas, o que mais chamou à atenção pela ausência foi o 'impeachment' de Collor.  Aliás, não sei o que chamou mais atenção, a ausência da cara do Collor na exposição ou a declaração do guia Sarney a respeito do acontecido: "Eu não posso censurar os historiadores que foram encarregados de fazer a história. Mas acho que talvez esse episódio seja apenas um acidente que não devia ter acontecido na história do Brasil".

Leitores do pura, realmente chegamos no ponto chave e final deste post, o direito à memória. A exposição foi encomendada pela casa, e teve a tutela de pessoas responsáveis pela nova configuração do que deveria ou não ser colocado ali à mostra. Não foram os historiadores que censuraram os caras pintadas, embora estes também possam contribuir de forma decisiva neste caso. Mas, a ordem veio de alguém que julgou que aquele acontecimento não tem relevância alguma no atual momento político brasileiro. Que achou melhor, não expor o rosto de alguém, em tempos de paz de espírito no congresso.

O direito à memória está lá. Do jeito que dá. Do jeito que alguém quer que ela seja apresentada.E assim estão os livros didáticos do ensino fudamental e médio, alguns podres museus 'históricos', e as cabeças da massa. Porque, o objetivo é esse, construir uma memória nacional, mas, esquecendo os acidentes políticos do país.

 

domingo, 29 de maio de 2011

Ternura... ternura;
Só!
Abandonada nos ásperos intervalos da voz,
esquecida
muda
não se manifesta.

triste nos tempos de silêncio,

ternura
muda!



pirenco

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) - sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo ue havia na terra
dependimentos de mais
e tarefas muitas -
os homens começaram a roer as unhas.
Ficou certo pois não
que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas não davam conta de iluminar o
silêncio das coisas anônimas -
passaram essa tarefa para os poetas.

Manoel de Barros.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Dividi minha saboneteira em duas,
uma parte fica em minha casa,
a outra fica na sua.

A escova de dente eu uso a sua,
assim como a coberta,
os talheres e a risada tua.

Também não tenho colchão,
mas na sua casa não durmo no chão.


Mas, se você tem tudo,
o que é que eu tenho então?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

Chorar

Hoje é o dia em que eu desejo chorar. No banheiro, sozinho, em silencio, no escuro. Porém, da porta entre aberta a luz da tarde se derrama pelos azulejos brancos ou beges. Hoje eu quero chorar sozinho, sozinho; sozinho não consigo ficar. “oi, tudo bem?” Talvez esteja tudo vazio por dentro e por fora... “tudo” ninguém nota ou fingem não notar que o vazio toma conta do universo meu-humano. Fechado em mim, na primeira e na última pessoa, olhares fixos que não despertam com os movimentos, aviões, pássaros perdidos; verdes matos com antenas ao alto matam homens e eu. Eu só quero chorar, sal que chegue ao paladar; só. Só chorar.



pirenco

lembrança

O que ainda não me foi tirado sustento com as palavras; trato das lembranças que carrego na mente. São muitas as recordações que me levam ao brilho nos olhos... foram bons e mágicos os meus jovens momentos. Lembro-me, em especial, dos grandes muros, enormes, gigantescos, infinitamente muros, muros em que eu subia para, mais próximo dos fios de eletricidade, lançar pedra amarrada a linha em busca da pipa presa ao fio; ou então... em dia de taco, pegar, aos pulos ofegantes, a bolinha perdida no quintal protegido pelo muro grafado por números de vereadores a cal; ou então... nas tardes de férias escolares, subir na imensidão de concreto e ficar observando as meninas desfilarem pela calçada suas belezas infantis; olhá-las do alto, das nuvens... esse era o mais significativo sinal de virilidade que eu-homem poderia demonstrar para mim e para os outros impedidos de olhar do alto por motivo de peso; não importava se as garotas me vissem, o fato é que eu-menino me sentia homem. Hoje, porém, passeio pelo bairro e vejo que os muros, as antigas muralhas de concreto culpadas por minhas cicatrizes... encolheram; pequenos, pequeninos. Passo por eles na companhia da lembrança, e, os meus olhos lacrimejando me vêem outra vez criança, subindo nos muros.



pirenco

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O abatedouro de pombos - V

-E o carro capota com jovens que brincavam com as putas da cidade vizinha-
Que tragédia, grita o homem!
-Todos morrem, menos as putas da cidade vizinha-
Que tragédia, grita a mulher!
-Que noite quente!-
Grita a puta da cidade vizinha.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A mascara maquiada:
alegria nos dentes,
raiva vermelha nos olhos,
veias.
Mergulho na insanidade do momento
Afogado... não respira

Barulhos repetidos, aplausos,
o carteiro que não é poeta,
Nas mãos suspiro do mês
derrama-se sobre a mascara,
''a conta''.



pirenco