sábado, 25 de fevereiro de 2012
Certo vôo
pássaro
sabe
a rota
do retorno.
Cada
pássaro
sabe
a rota
de si.
Cada
pássaro,
na rota,
sabe-se
pássaro.
Damário da Cruz
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
semente em terras férteis
Quando criança fui a um enterro, não relato minha idade por falta de lembrança, sei que era jovem, uma semente em terras férteis. Lembro-me, sobretudo, do aroma dum corpo em putrefação. “assassinato. tiros” disse uma mulher ao se aproximar, eu não sabia ao certo o que isso significava; com os olhos em lagrimas e as palavras engasgadas ela continuou comentando o ocorrido: “tiros da polícia. estrada de nazaré. encontraram agora a pouco. fazia tempo que sumiu”. Só agora consigo entender...
pirenco
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
DESPERTA, DOR
Acordei com o barulho do relógio, abri os olhos e a primeira pancada... 4:55 da madrugada. Fui ao banheiro; tomei um banho pelada, muito rápido; água e luz tá o olho da cara. No café... não vai leite, não tem em casa. Só tem café preto e forte pra me manter acordada e sair por aí apresentando a minha carta de entrada, currículo. Tenho poucas copias, tivesse muita, teria de ir a pé. O dinheiro tá contado, recontado, contadinho, pro ônibus e prum salgado de 50 centavos. Sai de casa, dia 13 de fevereiro de 2012, pisei na calçada esburacada, e como guerreira zumbi, subi até o ponto, “esperar o ônibus não é tarefa fácil,” pensei. Ponto lotado, empurra-empurra, sobe, não sobe; dentro mais lotado do que lá fora; “bom dia, motorista.” Ele não responde. Na catraca, a segunda pancada... ARMÊNIA 4,80. aumentaram a passagem. PORRA, ASSIM NÃO DÁ. Cobrador me diz uma coisa... POR QUE TUDO AUMENTA SEM NOS PERGUNTAREM SE AO MENOS QUEREMOS ? Eu não quero esse aumento. Se aceito, fico sem alimento. Essa condução tá mais cara do que o feijão. Cobrador... VAMOS DESPERTAR A NOSSA DOR !!! Preste atenção na jogada... o que você dá de lucro ao patrão, NUM SÓ DIA, paga o teu pão de todo o mês. E além do mais, o patrão não pega ônibus caro e lotado, ele anda de carro blindado com ar condicionado. Assim não dá, vamos despertar, dizer não ao aumento, não ao patrão. Vamos juntos... carona, companheiro?!!!
pirenco
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
UM PASSEIO
Paga pelo serviço e não tem nenhum parentesco com a jovem que empurra a cadeira de rodas. O passeio de meia hora, três vezes por semana, custa ao velho meio salário mínimo por mês. Calado e frágil, nos últimos anos seu único prazer é esquentar o corpo ao sol, ver o tráfego, ouvir o barulho turbulento da rua. Gosta de fazer sempre o mesmo trajeto, ela já sabe. Os primeiros minutos passam rápidos descendo do sexto andar, superando com ajuda do porteiro as escadas da entrada do edifício, cruzando cautelosamente a faixa de pedestres, desviando aqui e ali de alguma bosta de cachorro, rodando pela calçada de cimento até o jardim onde estão as árvores. Superado o percurso, estaciona com cuidado a cadeira de rodas ao lado do banco em que senta. Assim estarão os dois a compartilhar os próximos minutos do passeio: ele, instalado e taciturno, mirando os brotos das rosas; ela, apressada, o relógio.
por: Fausto Amadigi
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
10 megapicsels
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Tudo tem um nome
Tatu, sereia, borboleta
Coração, amor e arrepio
Tudo tem uma luz
Bom dia, semana, noite
Bar de esquina, chuva e espelho
Tudo tem um sabor
Azedo, doce, vazio,
Infência, mãe e abraço
Tudo tem um tempo
Parabéns, adeus, saudade
Fotografias e tumbas
sobre a minha cabeça ou sociabilidade
tenho ao meu lado um papel de pão do qual não fui eu quem comeu. não vô escreve nele; os pensamentos me bastam. Alias, não! Não bastam. é que me rabiscar neste papel de nada vai adiantar; ninguém lê e se lê... não se importa. que se foda os leitores. sim! sim, o meu pensamento me basta e não vô compartilhar ele com quem come o pão. Só, comigo.
tenho agora uma nova morada. não muito diferente das que já fui despejado. esta fica na rodovia com nome de corredor de F1, ayrton senna. Apesar do nome estranho, dizem que ele é do brasil e é um bom corredor; talvez ele já tenha passado pela minha cabeça, passam por ela a todo momento muitos carros correndo pra lá e pra cá. eu não acho bom: carros... gente... passam sem me ver, velozes, o que deixam pra trás é o barulho do escapamento e sua fumaça.
nessa morada tenho cama inclinada e escorregadia; no começo não foi nada fácil encontrar a posição ideal pro sonho. escorregava prum lado, pro outro. em algumas noites cheguei a ter sonhos repetidos em que eu estava diante dos engenheiros que projetaram o viaduto; e eles gordos e presos a roupas limpas diziam entre si ‘esta obra deve ter concreto inclinado e escorregadio em suas bases. Pois desta forma não haverá mais os desgraçados, imundos e magricelos que tanto deixam feias as nossas construções’.
aiaiai, esses meus sonhos... o que tenho alem dos sonhos é uma cama que foi difícil, mas que agora esta fácil de dormir; tive que me adaptar e acabei encontrando uma forma de descanso que não me deixa com dores na coluna ao despertar.
mas, o que mais gosto, não é a falta de dores e sim os meus momentos de sociabilidade – depois que escutei numa propaganda eleitoral esta palavra... sociabilidade... sociabilidade... gostei tanto que bebi três pingas no bar pra comemorar uma palavra nova posta no meu dicionário, sociabilidade... sociabilidade... é linda. e é ela que uso pra descrever a mim o meu momento de sociabilidade, talvez eu tenha pensado nisso tudo por culpa da sociabilidade, a sociabilidade que tenho com as minhas visitas. elas vem do rio, escuro, fedido e que pouco corre pra algum lugar. eu, debaixo da ponte, elas, no tietê. eu sempre achei interessante o dizer de que os cães são os melhores amigos dos homens, talvez seja mesmo; mas de uma coisa eu tenho certeza: as capivaras são as melhores observadoras dos homens. elas saem do seu nado só pra me verem. em mim, misturam-se varias sensações quando me olham, me observam e eu as vejo com seus movimentos leves se aproximando de mim sem piscar os olhos, sociabilidade... sociabilidade... depois de um longo tempo de nos comunicamos com interrogações silenciosas, elas vão se arrastando pro rio com uma tristeza lenta; nadam... nadam... e eu... fico com o barulho dos carros que passam com gente pra lá e pra cá, sobre a minha cabeça.
pirenco
