quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

sobre a minha cabeça ou sociabilidade

tenho ao meu lado um papel de pão do qual não fui eu quem comeu. não vô escreve nele; os pensamentos me bastam. Alias, não! Não bastam. é que me rabiscar neste papel de nada vai adiantar; ninguém lê e se lê... não se importa. que se foda os leitores. sim! sim, o meu pensamento me basta e não vô compartilhar ele com quem come o pão. Só, comigo.

tenho agora uma nova morada. não muito diferente das que já fui despejado. esta fica na rodovia com nome de corredor de F1, ayrton senna. Apesar do nome estranho, dizem que ele é do brasil e é um bom corredor; talvez ele já tenha passado pela minha cabeça, passam por ela a todo momento muitos carros correndo pra lá e pra cá. eu não acho bom: carros... gente... passam sem me ver, velozes, o que deixam pra trás é o barulho do escapamento e sua fumaça.

nessa morada tenho cama inclinada e escorregadia; no começo não foi nada fácil encontrar a posição ideal pro sonho. escorregava prum lado, pro outro. em algumas noites cheguei a ter sonhos repetidos em que eu estava diante dos engenheiros que projetaram o viaduto; e eles gordos e presos a roupas limpas diziam entre si ‘esta obra deve ter concreto inclinado e escorregadio em suas bases. Pois desta forma não haverá mais os desgraçados, imundos e magricelos que tanto deixam feias as nossas construções’.

aiaiai, esses meus sonhos... o que tenho alem dos sonhos é uma cama que foi difícil, mas que agora esta fácil de dormir; tive que me adaptar e acabei encontrando uma forma de descanso que não me deixa com dores na coluna ao despertar.

mas, o que mais gosto, não é a falta de dores e sim os meus momentos de sociabilidade – depois que escutei numa propaganda eleitoral esta palavra... sociabilidade... sociabilidade... gostei tanto que bebi três pingas no bar pra comemorar uma palavra nova posta no meu dicionário, sociabilidade... sociabilidade... é linda. e é ela que uso pra descrever a mim o meu momento de sociabilidade, talvez eu tenha pensado nisso tudo por culpa da sociabilidade, a sociabilidade que tenho com as minhas visitas. elas vem do rio, escuro, fedido e que pouco corre pra algum lugar. eu, debaixo da ponte, elas, no tietê. eu sempre achei interessante o dizer de que os cães são os melhores amigos dos homens, talvez seja mesmo; mas de uma coisa eu tenho certeza: as capivaras são as melhores observadoras dos homens. elas saem do seu nado só pra me verem. em mim, misturam-se varias sensações quando me olham, me observam e eu as vejo com seus movimentos leves se aproximando de mim sem piscar os olhos, sociabilidade... sociabilidade... depois de um longo tempo de nos comunicamos com interrogações silenciosas, elas vão se arrastando pro rio com uma tristeza lenta; nadam... nadam... e eu... fico com o barulho dos carros que passam com gente pra lá e pra cá, sobre a minha cabeça.


pirenco


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

salve, leitoras (es) do pura substância;

o 20 de novembro se foi, Zumbi morreu, e os poucos comentários que ficaram... foram: ''droga, nem pro dia dos pretos ser na semana; assim seria feriado''. Eu escutei estes comentários de algumas pessoas. Diante destas palavras me cabe socializar alguns pensamentos.
Primeiro: os dias, todos eles, estão nas mãos dos patrões, ou seja, nas mãos dos grandes capitalistas; desta forma os feriados são sempre bem vindos por quem trabalha, até mesmos os feriados católico-religiosos têm a simpatia dos ateus.
Segundo: declarações como essas, demonstram o quanto se faz necessário conhecermos a história dos oprimidos, a nossa. 20 de novembro não pode ser visto como apenas uma data de 'preto', esta leitura equivocada da história demonstra o quanto a classe dominante tem interferido nos nossos pensamentos; é desta forma que os seu interesses de dominação ideológica ficam explícitos. Porém, se não conhecermos, nem que seja minimamente, a história dos oprimidos, dos que não têm voz, não seremos capazes de reconhecermos nossas tradições de lutas diante dum simples espelho. E, presos a um eterno reflexo, continuaremos como papagaios colonizados/explorados/estuprados/oprimidos..., continuaremos a ouvir comentários que a classe dominante plantou a séculos em nossas mentes.



Primeiro o ferro marca
a violência nas costas
Depois o ferro alisa
a vergonha nos cabelos
Na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
é quebrar todos os elos
dessa corrente de desesperos.



abaixo, socializo uns videos que nos faz pensar-nos:


Filme: ''panteras negras''
http://www.youtube.com/watch?v=-xDjqttKH4Y


Malcolm x ''por qualquer meio necessário''
parte I
http://www.youtube.com/watch?v=2x8KgPf8Pq0&feature=related

parte II
http://www.youtube.com/watch?v=NLpfZc79na8&feature=related


Bobby S
http://www.youtube.com/watch?v=ncwYXfrMMqM&feature=player_embedded

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

no meio da ladeira ou + um dia de peso

''cansei!!! cansei!!! maldita ladeira. se no meio desta ladeira eu tivesse um cigarro ou goles de pinga não pensaria no carro de papel, na minha cor e em alguns poucos ferros que trago nos ombros. me parece que a roda tá com problemas, quebrada; ela gira, gira... e eu tô sempre no mesmo lugar. se eu tivesse um cigarro ou goles de pinga não me importaria com a roda... Biiiiiiiiii!!! por que buzina? - seu filho da puta. há quantos quilômetros você passa por mim? 30? 40? 50? há quantos anos, há quantas gerações você passa por nós e só buzina sua raiva, quantos dezembros você rezou pro menino jesus? hen? hen? seu filho da puta!!! o que carrega no porta-malas? sua viagem de feriado ou carne prum churrasco? eu tô cansado!!! meu mundo tem problemas. não tenho estepe, nem mundo auxiliar; só ladeira. filho da puta... preciso bebê. preciso bebê. fumá. 'me vê um solto'. desgraçados!!! não gostam das minhas moedas ou dos trapos sujos? desgraçados, não vendem solto. vamos lá, filho de zumbi. no três... um, dois, três... hunnn!!! preciso chegá ao ferro velho pra descarregá mais um dia de peso''.



pirenco

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

um voô.

se eu tivesse asas/ estaria agora ao teu lado/ estaria aí no seu sofá laranja assistindo um jogo do Palmeiras/ conversando sobre a violência nas escolas/ estaria voando em busca da real pedagogia dos pássaros oprimidos/ estaria no ar.

sábado, 29 de outubro de 2011

Burroughs & Zé.


Burroughs escreveu sobre gatos e Zé Ramalho sobre borboletas, numa abstração mágica da relação entre o homem e suas profundas crises e esquisitices. Tanto um quanto o outro trasncederam o limite da arte e da literatura -marginal.

Nenhum dos dois leram Manifestos, além dos Manifestos poéticos. Para que assim não entrassem em contradição consigo mesmo todas as vezes que fosse escrever suas prosas, contos e poemas. Assim foram mais livres e assim escreveram sobre gatos e borboletas e coqueteis explosivos. 

Desenquadraram suas letras, foram longe, adptaram conexões surreais ao seus modos. Se encontram muito mais do que os críticos dizem se encontrar em suas trajetórias. Zé toca Bob Dylan, mas não vejo graça nas versões forçadas deste para com as músicas daquele. Dylan é mais Kerouac -ele mesmo disse- e Zé é mais Burroughs -eu que estou dizendo.

Por fim, entre as diferenças sobra muita coisa boa pra se ler e ouvir. Longe de algo empacotado,o trabalho desses dois especialistas em domesticar animais serve de referência pra um monte de guri que anda escrevendo e cantando por aí. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

SEM-TERRA


Pedra Branca, Quixadá,

Veríssimo, Choro Limão.

Neles viveu meu avô,

Pobre e bom cidadão;

Viveu sempre trabalhando,

Mesmo cansado, lutando

Pra enriquecer o patrão.


Fumou cigarro de palha,

Comeu cuscuz com feijão.

Pra sustentar a família

Lascou a palma da mão;

Venceu vento, chuvas, secas,

Arrancou toco, fez cercas

No triste a árido sertão.


Dedicou as forças a terra,

Imensa terra limpou.

Quando ela ficou seca,

Ele, contente, aguou.

Teve filho com Maria:

Amaram-se até que um dia

O destino os separou.


Ele, desde os sete anos,

Terra viveu a cavar,

Plantou riqueza na terra,

Terra pra ele era lar

E, já cansado e velhinho,

Morreu ali quase sozinho,

Sem terra pra lhe enterrar.



escrito por Costa Senna no livro "caminhos diversos - sob os signos do cordel''

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

entre a inflação e a radionovela

não sei porque tiraram os trens de circulação. não sei porque tiraram as rádionovelas que tinha no meu tempo. não sei porque tem horário de verão, como pode rezar o terço ainda de dia? tão acabando com tudo. nem os finais de novela são como antigamente. antigamente tinha aquele suspense pra o final. hoje em dia não! na segunda feira, ou na terça já adianta logo tudo,uma coisa horrível. até bater na criança não pode mais. porque os direito humano já não sabe mais o que faz. e a inflação? vixe maria, tá tudo caro demais.  podia chamar os escritor de novela, pra adiantar logo o final dela.adiantava pelo menos a desgraça dos preço alto. porque novela como antes eles já não faz.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Independência ?


No sétimo dia de setembro Deus, erguendo sua espada de fogo

declarou:

-Independência ou Morte. Fiat Brasilis - faça-se o Brasil.

Estava criado o Mundo Brasil. Viu Deus que era bom, e foi descansar.

Mas o negro na senzala encafifado com o fato, resolveu indagar:

-O que é independência?

Deus, sabichão, já com jeitinho brasileiro, respondeu:

Não se preocupe em saber. Depois a gente dá um jeitinho.

-Mas o que é independência? - insistiu o afro-descendente.

-Pode ser, por exemplo, tema para um samba-enredo - respondeu o bom

Deus, inventando o Carnaval. - Que tal a idéia? Não está mal.

-Mas eu preciso entender. O que é independência?

-Isso ainda não está à altura do seu entendimento - retrucou Deus,

já meio irritado, mandando o cafuzo esquecer o assunto confuso. - Deixe

isso de lado. Não é assunto para negro.

-Se não é para negro é para tupí - vociferou o índio, saindo da

mata vazia.

E Deus, com seu cajado, no cavalo de chefe de Estado, esbravejou:

-Isso não é coisa para índio. Isso é para o Primeiro Mundo,

civilizado.

-Se não é para índio, é para mulato - cantou o mulato, estupefato.

E Deus, no seu trono divino falou mais alto:

-Isso não é coisa para mulato. Isso é assunto complicado.

Aí vieram o operário, a dona de casa, o visionário, o artista com

sua arte Veio gente de toda parte, o moleque de rua, o caipira, o

pau-de-arara. Todos gritaram ao mesmo tempo, perdendo a paciência:.

-O que é independência?

-Independência, é, por assim, como diria, na verdadeira concepção

da palavra, assim, assim... Entenderam meus filhos? é...

E, saindo dos trilhos, conclui:

-Vão à merda. Isso não é coisa para vocês.

Encurralado, enraivecido, desesperado, emputecido; Deus então tomou

uma decisão, fazer um arranjo em sua invenção. Acabar com as dúvidas

eliminando a indagação.

Silêncio celestial (ou sepulcral?). Mas quem prestar a atenção,

atrás dos muros, ouve sussurros:

-Independência? Independência?



este texto foi eladorado em conjunto pelos poetas Daniel Neves e Castelo Hanssen para adaptação teatral em ''comemoração'' ao mês da independência nacional.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

singela coxinha

Entrou no bar e declarou ao proprietário uma singela homenagem aos seus heróis
- me vê uma coxinha
- algo para beber? - perguntou de maneira espontânea o dono do boteco.
- não. só tenho pra coxinha - respondeu com a voz seca e autoritária.
Sem mais perguntas, o dono do bar se vira em direção à grande gaveta onde esconde as coxinhas dos bichos indesejados, pega-a, caminha rumo à bacia de óleo borbulhante. O trabalho com o óleo, a coxinha, a vida, impedem-no de notar que entraram três crianças no boteco. De costas, não pode ver três rostos sujos das brincadeiras de pedir. Paradas, tímidas, dentro do bar, contemplam os objetos e planejam a abordagem.
- aqui... a coxinha está pronta. - neste instante o dono projeta os olhos talvez interrogativos sob as crianças.
- tio... tamu cum fomi. - declara a menina, a menor entre as três.
O dono do bar pensa por alguns milésimos de segundos em algo que somente ele poderia descrever...
- tá bom, tá bom... vô fritá mais trêis. - essas palavras saíram de sua garganta misturadas as possíveis causas da fome.
Ao lado da sujeira infantil, o primeiro freguês - o da coxinha - morde com raiva seu alimento, põe força nas mandíbulas, caniços, tritura o frango, coxinha.
- um dia eu acabo com isso. Deixa suas duas moedas sobre o balcão e abandona o boteco.




pirenco