sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Independência ?


No sétimo dia de setembro Deus, erguendo sua espada de fogo

declarou:

-Independência ou Morte. Fiat Brasilis - faça-se o Brasil.

Estava criado o Mundo Brasil. Viu Deus que era bom, e foi descansar.

Mas o negro na senzala encafifado com o fato, resolveu indagar:

-O que é independência?

Deus, sabichão, já com jeitinho brasileiro, respondeu:

Não se preocupe em saber. Depois a gente dá um jeitinho.

-Mas o que é independência? - insistiu o afro-descendente.

-Pode ser, por exemplo, tema para um samba-enredo - respondeu o bom

Deus, inventando o Carnaval. - Que tal a idéia? Não está mal.

-Mas eu preciso entender. O que é independência?

-Isso ainda não está à altura do seu entendimento - retrucou Deus,

já meio irritado, mandando o cafuzo esquecer o assunto confuso. - Deixe

isso de lado. Não é assunto para negro.

-Se não é para negro é para tupí - vociferou o índio, saindo da

mata vazia.

E Deus, com seu cajado, no cavalo de chefe de Estado, esbravejou:

-Isso não é coisa para índio. Isso é para o Primeiro Mundo,

civilizado.

-Se não é para índio, é para mulato - cantou o mulato, estupefato.

E Deus, no seu trono divino falou mais alto:

-Isso não é coisa para mulato. Isso é assunto complicado.

Aí vieram o operário, a dona de casa, o visionário, o artista com

sua arte Veio gente de toda parte, o moleque de rua, o caipira, o

pau-de-arara. Todos gritaram ao mesmo tempo, perdendo a paciência:.

-O que é independência?

-Independência, é, por assim, como diria, na verdadeira concepção

da palavra, assim, assim... Entenderam meus filhos? é...

E, saindo dos trilhos, conclui:

-Vão à merda. Isso não é coisa para vocês.

Encurralado, enraivecido, desesperado, emputecido; Deus então tomou

uma decisão, fazer um arranjo em sua invenção. Acabar com as dúvidas

eliminando a indagação.

Silêncio celestial (ou sepulcral?). Mas quem prestar a atenção,

atrás dos muros, ouve sussurros:

-Independência? Independência?



este texto foi eladorado em conjunto pelos poetas Daniel Neves e Castelo Hanssen para adaptação teatral em ''comemoração'' ao mês da independência nacional.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

singela coxinha

Entrou no bar e declarou ao proprietário uma singela homenagem aos seus heróis
- me vê uma coxinha
- algo para beber? - perguntou de maneira espontânea o dono do boteco.
- não. só tenho pra coxinha - respondeu com a voz seca e autoritária.
Sem mais perguntas, o dono do bar se vira em direção à grande gaveta onde esconde as coxinhas dos bichos indesejados, pega-a, caminha rumo à bacia de óleo borbulhante. O trabalho com o óleo, a coxinha, a vida, impedem-no de notar que entraram três crianças no boteco. De costas, não pode ver três rostos sujos das brincadeiras de pedir. Paradas, tímidas, dentro do bar, contemplam os objetos e planejam a abordagem.
- aqui... a coxinha está pronta. - neste instante o dono projeta os olhos talvez interrogativos sob as crianças.
- tio... tamu cum fomi. - declara a menina, a menor entre as três.
O dono do bar pensa por alguns milésimos de segundos em algo que somente ele poderia descrever...
- tá bom, tá bom... vô fritá mais trêis. - essas palavras saíram de sua garganta misturadas as possíveis causas da fome.
Ao lado da sujeira infantil, o primeiro freguês - o da coxinha - morde com raiva seu alimento, põe força nas mandíbulas, caniços, tritura o frango, coxinha.
- um dia eu acabo com isso. Deixa suas duas moedas sobre o balcão e abandona o boteco.




pirenco

terça-feira, 13 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Em setembro...

...o dia da independência já passou, com um considerável aumento de brasileiros patriotas. Segundo a imprensa, subiu o número de pessoas que foram acompanhar o desfile com patriotismo.  Amor ao Brasil. Essas coisas assim. Teve de tudo neste 7 de setembro... teve gente falando no twitter que tinha saudade da ditadura, queda de avião com um time inteiro de hockey morrendo, coisas tão tristes quanto este fatídico e ritualístico 7/9. O pior é que nós temos que aturar o pré-11/9 todo ano. Porra! Acho que setembro só começa a ser mês depois do dia 11/9.  Até o aniversário dos gambá é dia 1/9. Eu estou pensando em mudar a data do meu aniversário, que é dia 5/9, lá pro fim do mês. Vou botar pro dia 27/9 dia de Cosme e Damião pra melhorar as coisas. Vê se vem umas energia positiva.   

terça-feira, 30 de agosto de 2011

às vezes é preciso olhar as formigas para entender o mínimo do humano. Caeiro, se ainda bebesse absinto pela boca de Pessoa, diria que olha-las é somente olha-las, sem metafísica - não buscaria compreender nada. só vê-las o deixaria contente. Porém, eu, que não estou bêbado, aconchego minhas nádegas sobre a infinita grama verde e vejo o trabalho das formigas, penso no humano...




pirenco

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os objetos estão na sua cabeça.

“Ao invés de investir R$ 1 milhão ou R$500 mil em um museu municipal, é melhor calçar algumas ruas”. É assim que se começa todo e qualquer debate de repartição de verba na administração pública, e aqui não vale citar as cidades que cabe essa realidade, são milhares.

E me inclino a levantar a bandeira que cultura e governabilidade traçam caminhos tortuosos em que a prioridade de um é o declínio do outro, fato. Museu não dá voto, paralelepípedo dá.Realidade. Museu, dependendo do seu gestor, educa. Paralelepípedo calça as ruas de areia para os carros passar.
A gente tem que escolher entre saneamento básico e o museu. Aliás, a gente não tem que escolher é nada. Uma cidade que tem esgoto a céu aberto, não tem condições de gastar a verba da cultura com a cultura, tem que gastar com esgoto.

O que tem de vagabundo que sustenta essa idéia - são muitos. Autogestão cultural para não depender desse tipo de gente. Se a exposição interessa a seu bairro ou sua rua, monte-a. A rua pode ser essa com esgoto a céu aberto e sem paralelepípedo. Os objetos estão na sua cabeça.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Amado, carrossel de menino, Lampião

Amado carrossel onde menino Jorge se tornou Lampião
azul... verde... amarelo... roxo... e sangue.
luz refletida pelo céu da noite
vinda de sobre o cavalinho nunca nauseado,
olhos abertos
revólver da imaginação engatilhado
vermelho, vermelho, vermelho
escorre
dos olhos a alegria de ser Lampião...
criança...
que não acabe a brincadeira.



inspirado no trecho as luzes do carrossel da obra ''capitães da areia'' de Jorge Amado.



pirenco

Quando os trabalhadores perderem a paciência


As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!

(Mauro Iasi)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Jesus Trotsky, mais do que bom

A mãe, católica fervorosa, queria que ele se chamasse Jesus Nazareno. O pai, materialista convicto, optara por Leon Trotsky. Discutiram, e o menino acabou recebendo, na pia e no cartório o nome de Jesus Trotsky da Silva. Foi difícil convencer o padre a batizá-lo com esse nome. Também não foi fácil fazer a funcionária do cartório grafá-lo corretamente.
O pai era marceneiro dos bons, com curso no Senai. Trabalhara sempre em uma boa empresa e ganhava um salário razoável. Era sindicalizado, mas nunca quis ocupar cargo de direção. A mãe era de prendas domésticas, das mais prendadas. Participava de Pastoral e fazia excelente trabalho social, em favor dos mais necessitados, servindo a Deus e aos homens.
O inocente foi crescendo e recebendo duas orientações diferentes, ambas, contudo, levando-o a caminhos parecidos. A mãe ensinou a ter amor e caridade, como ensinou seu xará, Jesus Cristo. O pai fê-lo entender que os homens e mulheres do mundo inteiro devem viver em paz e fraternidade. Ambos o ensinaram a repartir o pão. Ambos o ensinaram que os homens são todos irmãos, por Deus ou pela dialética.
Aprendeu e foi um bom menino e um homem de bem. Foi ainda mais longe. Jamais quis receber alguma coisa pelo bem que praticava. Acreditava que o bem se satisfaz por si próprio. Se fizesse o bem para ganhar o céu, se andasse direito para ser promovido no emprego, se espalhasse boas palavras para conduzir multidões, estaria trabalhando em causa própria.
O bem praticado em troca de alguma coisa não é bem. Fiel a esse pensamento, nunca teve uma religião, e nunca aderiu a qualquer ideologia ou partido político.
Assim viveu, como um santo ou um filósofo. Nunca teve nada, mas encheu o mundo de idéias e de filhos. As idéias, como todo pensamento generoso, foram esquecidas ou deturpadas. Os filhos cresceram e se multiplicaram em netos. Nenhum puxou ao pai ou ao avô. Todos foram criaturas normais e mais ou menos felizes, mais ou menos infelizes, contribuindo para que o mundo continuasse a girar na mesma órbita.
Como tudo que é mortal, Jesus Trotsky morreu, velho, pobre, mas realizado. Foi para o Inferno. Deus achou que tanto desapego era petulância.


texto escrito por Castelo Hanssen; retirado do blog:

http://castelohanssen.blogspot.com/