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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

647488


madalena disse que seu pai foi expulso da corporação.
e que ele tinha 3 pistolas frias para as ações noturnas
na periferia da cidade. madalena, chora.
"é complicado, temos que assumir ordens, tem os direitos
humanos" era o que estava na ficha do depoimento do pai
de madalena, quando caiu na corregedoria depois de
descoberto o grupo de extermínio.
ontem, morreram mais 20. tudo via arma fria. ordens vinda
do centro. não é pra deixar um vivo. se o bar tiver aberto
descarrega. não é alarme, é sinal vivo de que vem mais uma
execução em massa. uma espécie de continuação da demissão
em massa das metalúrgicas.
madalena se mata com a arma fria do pai. mais uma pra
estatística.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

no meio da ladeira ou + um dia de peso

''cansei!!! cansei!!! maldita ladeira. se no meio desta ladeira eu tivesse um cigarro ou goles de pinga não pensaria no carro de papel, na minha cor e em alguns poucos ferros que trago nos ombros. me parece que a roda tá com problemas, quebrada; ela gira, gira... e eu tô sempre no mesmo lugar. se eu tivesse um cigarro ou goles de pinga não me importaria com a roda... Biiiiiiiiii!!! por que buzina? - seu filho da puta. há quantos quilômetros você passa por mim? 30? 40? 50? há quantos anos, há quantas gerações você passa por nós e só buzina sua raiva, quantos dezembros você rezou pro menino jesus? hen? hen? seu filho da puta!!! o que carrega no porta-malas? sua viagem de feriado ou carne prum churrasco? eu tô cansado!!! meu mundo tem problemas. não tenho estepe, nem mundo auxiliar; só ladeira. filho da puta... preciso bebê. preciso bebê. fumá. 'me vê um solto'. desgraçados!!! não gostam das minhas moedas ou dos trapos sujos? desgraçados, não vendem solto. vamos lá, filho de zumbi. no três... um, dois, três... hunnn!!! preciso chegá ao ferro velho pra descarregá mais um dia de peso''.



pirenco

sábado, 29 de outubro de 2011

Burroughs & Zé.


Burroughs escreveu sobre gatos e Zé Ramalho sobre borboletas, numa abstração mágica da relação entre o homem e suas profundas crises e esquisitices. Tanto um quanto o outro trasncederam o limite da arte e da literatura -marginal.

Nenhum dos dois leram Manifestos, além dos Manifestos poéticos. Para que assim não entrassem em contradição consigo mesmo todas as vezes que fosse escrever suas prosas, contos e poemas. Assim foram mais livres e assim escreveram sobre gatos e borboletas e coqueteis explosivos. 

Desenquadraram suas letras, foram longe, adptaram conexões surreais ao seus modos. Se encontram muito mais do que os críticos dizem se encontrar em suas trajetórias. Zé toca Bob Dylan, mas não vejo graça nas versões forçadas deste para com as músicas daquele. Dylan é mais Kerouac -ele mesmo disse- e Zé é mais Burroughs -eu que estou dizendo.

Por fim, entre as diferenças sobra muita coisa boa pra se ler e ouvir. Longe de algo empacotado,o trabalho desses dois especialistas em domesticar animais serve de referência pra um monte de guri que anda escrevendo e cantando por aí. 

sábado, 2 de julho de 2011

Escrevo de um cárcere

Estou preso e com raiva; muita raiva. Aguardo a injeção que me tirará a vida. Não sei o que me deu na cabeça para escrever estas palavras... Talvez seja o desejo de não estar sozinho. As palavras são boas companhias. Tudo que sairá desta caneta creio que não será lido por nenhum mortal; caso isso não aconteça, e um inocente de alma propuser-se a ler o que escrevo, sugiro desde já: não me julgue pela pessoa que sou, e sim pelo amor a profissão que tive e posso dizer... Ainda tenho, mesmo nesta prisão com pouco espaço e quente; talvez a quentura não seja da cela e sim do meu corpo raivoso que aguarda o final.
Sempre fui um homem dedicado, exercia as funções que me eram dadas com o maior empenho possível. Quando criança, não via a hora de chegar da escola e fazer o dever de casa; quando terminava era a sensação mais prazerosa que podia sentir. Talvez o inocente leitor não sinta prazer em realizar uma tarefa destinada, está aí leitor, a nossa diferença. Creio que está ansioso para saber o motivo que me trouxe a este lugar, pequeno e agora frio. Mas digo-lhe, acalme-se, logo chegarei ao ponto que sua alma deseja.
Acalme-se. Acalme-se, deixe que meu corpo esfrie mais ao contar-lhe sobre minha mocidade. Quando tinha por volta dos meus quinze anos, as brincadeiras para mim eram de verdadeiro deleite – aquelas que eu brincava comigo mesmo. Nunca tive amigos, criar personagens imaginários e depois desejar matá-los, criando formas para isso, era a minha mais pura diversão. Meus pais... Prefiro não escrever sobre eles; Talvez o inocente leitor deva estar se perguntando: Por que não fala sobre os pais? Digo-lhe que sou mais forte, para encarar o fim, se estiver sozinho.
Quando atingi a idade para trabalhar, fui ao encontro da profissão que se enquadraria com a minha personalidade. Foi perfeito, amor à primeira vista, um grande e equipado matadouro de animais. A euforia era tanta que não me importei com o quanto iriam me pagar; o que eu queria era o mais rápido possível trabalhar. Foi assim, inocente leitor, que encontrei a profissão perfeita e logo comecei a amá-la. Na minha vida era morte e mais morte; todos os dias dezenas de animais passavam pelas minhas mãos. Eu era o mais dedicado profissional do matadouro. Até mesmo nos dias de folga não conseguia ficar sem matar, por isso trabalhava.
Depois de vinte anos de profissão... Fui dispensado das atividades. “Malditos sejam os vegetarianos” foi o que o meu patrão alegou justificando a minha dispensa. Inocente leitor, você não é vegetariano, não é?! Se for... interrompo aqui minha narrativa, pois você me trouxe a esta cela, agora quente. Quente de raiva.
Não! Creio que você não é a causa do meu fim. Continuarei.
Quando sai pela última vez do lugar que representava o céu vermelho mais lindo, estava – como agora – tomado de raiva, queria mostrar o meu trabalho, mostrar o quanto era bom na arte de matar; e para isso fui à casa do meu ex-patrão lhe mostrar o quanto a profissão me ensinou.
Toquei a campainha...duas ou três vezes, abriram a porta, era uma senhora de muita idade, talvez fosse sua mãe e logo atrás uma criança curiosa que a perguntava “Quem é vovó?” Identifiquei-me como funcionário e amigo do dono do matadouro. Pediram-me para entrar e aguardar a sua chegada. Entrei recusando o chá oferecido, sentei-me sentindo forte vontade de matá-las – queria mostrar ao ex-patrão, quando chegasse, o quanto aprendi. Fui rápido e eficiente como de costume. Ao sair deparei-me com o ex-patrão, ou pai, ou filho, como queira inocente leitor; e ao me ver com as mãos vermelhas saindo de sua casa, agarrou-se a mim pondo-me imobilizado no chão, chamou os vizinhos que logo notaram o que acontecia e... Ó leitor, este fato me deixa com raiva a ponto de interrompe as palavras.
Pronto! Estou aqui... Preso e com raiva, aguardando o meu fim.


pirenco

sexta-feira, 10 de junho de 2011

João, o menino que não sabia escarrar.

Toda vez que João ficava gripado e o catarro começava a escorrer pra perto da boca, era um tormento. Às vezes nem dava tempo de puxar de volta e na boca mesmo o catarro entrava. Descia como de fosse suco de caixinha industrializado e nem precisava de canudo. Conforme ia piorando e o catarro aumentando, mais tenso e preocupado João ficava. Na escola todo mundo dava risada. A professora nem no menino tocava, João sentava no fundo do canto da sala. Até que certo dia, João, cansado de tanta agonia, resolve a aprender a escarrar. Escarrar fazendo barulho, como o pai fazia. Prestou atenção como funcionava. Quando o pai ia escarrar toda ora João olhava. E desse dia em diante, João com o catarro já não se incomodava. Na escola ganhou fama e status de campeão. João é agora é chamado de João Escarrão.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Cabral, o foragido.

Cabral queria pedir a mão de Luíza em casamento, mas nem onde guardar os trapo tinha. Decidiu então, depois de muito pensar que um banco ele tinha de assaltar. Chamou Zé Carlos, seu amigo desde o catecismo, que era o único amigo que ele tinha, pro crime -justo- praticar. Zé Carlos já chegou no banco atirando, matando três seguranças, mandando todo mundo deitar -pois agora seu amigo tinha de casar. Assalto bem sucedido! Cabral agora é foragido, mas pelo menos deu uma casa pra Luíza morar.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O poço d’água.

Dois amigos caçam no meio da roça, quando invadem uma propriedade de um desconhecido. O objetivo era beber água num poço d’água de 6 metros. O primeiro pula com ajuda de uma corda, e não se ouve mais a voz dele. Preocupado o segundo também vai e não se ouve mais a voz do mesmo. Agora quem caça é o silêncio.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O hasteador de bandeiras.

Levantar a bandeira é a profissão de Alves. Todos os dias é ele que levanta a bandeira da empresa. Levanta com orgulho a bandeira do Brasil, do estado e da empresa, da qual ele é o hasteador há quase 23 anos. Empresa que, por coincidência, produz bandeiras há 74 anos. Quando ele começou, começou no setor de produção mais foi evoluindo conforme seu esforço e hoje se orgulha de chegar onde está, hasteador -chefe. Alves não dá bandeira, faz média com todo mundo, do pessoal da produção ao pessoal que fala inglês do setor da administração. E, mesmo assim tem gente que tem inveja do cargo de Alves. Ele não entende. Logo, encara a inveja com sorrisos. Hoje de manhã, a bandeira estava hasteada a meio palmo. Alves foi encontrado com dois tiros no peito e com a bandeira da empresa sobre o corpo, estirado, no chão da recepção.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sete, onze e dezoito.

Nem no dia do meu nascimento eu fiquei tão nervoso e feliz quanto esse dia que contarei a seguir. Fazia sol, mas, acredito que a temperatura não importava nesse dia. Se estivesse nevando estaria nervoso e feliz do mesmo jeito. Não lembro nem se levei blusa pra me proteger do frio. Almocei com um certo medo do resultado da digestão; minha aparência era uma mistura de felicidade e ansiedade, o que posso descrever de forma resumida como: engraçado.

Lembro muito bem... quando eu tinha sete anos assistia aos jogos do meu time sozinho, eu e a tv; e sabia desde então que jamais torceria pra outro time no mundo. Meu irmão era muito pequeno e quando cresceu, passou a torcer pro time rival. Com onze anos, eu pedia pra meu pai me levar ao estádio, mas, ele dizia sempre que não tinha tempo, nem dinheiro e que torcia pro Bahia. Era uma resposta pronta. Ele nunca me levou ao estádio. Minha sorte era que os pais dos meus amigos também diziam a mesma coisa, menos a parte de torcer pro Bahia.

Depois do almoço, no banco do carona, com o vento na cara, com a blusa, com o sol, me dirigi ao que aqui no Brasil chamamos de estádio. Emoção? Tem gente que diz que não tem emoção no estádio. Eu não consigo colocar emoção nos outros, acredito que não seja essa uma das minhas boas virtudes. Por exemplo, este texto, que conta à primeira vez que eu fui ao estádio. Só vai ter emoção mesmo por aquele que um dia sentiu a mesma coisa que eu senti. E também não saberá explicar, como eu. E finalizará o texto aqui, como eu.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Pra não dizer que não falei da Rita.

Ela fazia parte da companhia de dança da cidade. Mas, tinha a bunda muito grande. Quando ela ia pra aula, aos 15 anos, era uma reviravolta nos olhares dos vizinhos. Era que a bunda da Rita era muito grande. Recebia muitas críticas da professora russa, sem bunda. Ela pensava em desistir. Ela pensava seriamente em desistir. Mas, um dia, como que algo inexplicável, João viu Rita. Melhor, João viu a bunda da Rita. E se apaixonou. Casou e levou Rita para o Rio de Janeiro, onde ela veio a ser uma grande profissional de dança. Rebolando a bunda.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Preferência de natureza

Casou-se infeliz, com um rapaz que tinha ejaculação precoce.
Claro que com o tempo, a divisão das dívidas, das tarefas de homem e mulher, e também com a chegada dos cães de estimação, a infelicidade cristalizou-se, tornou-se digna.
Antes ela gostava de um outro muito mais viril, mas ele casou-se com sua noiva de tanto tempo, uma moça que gemia muito mais que ela, e tinha lisos e escuros cabelos naturais.

sábado, 24 de abril de 2010

O banheiro da república.

O banheiro da república fede, tem pisos imundos e não possui de uma constituição muito parecida com as outras constituições que temos em grandes banheiros republicanos. O poder executivo do banheiro da republica vem executando com muito rigor as ordens vindas da assembléia. Ontem, foi descoberto uma infiltração na parede ao lado do ralo.E no exterior todos vem elogiando muito a política de seus mandatários, que alternan-se no poder oito vezes durante o mês. Isso significa que é um banheiro de uma república gregamente democrática. E, o senado deve aprovar ainda esse mês a compra de 5(cinco) panos de chão e depois a liberação de recurso para o reparo na infiltração. Depois desse reparo e dessa aprovação de conta, nunca mais teremos problemas no banheiro da república.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A correnteza levou meu chinelo.

A água batia na canela, e eu não entendia nada no meio daquela confusão. Só sei que na hora que eu fui pular a guia pra ir pro outro lado da rua, meu chinelo caiu na correnteza que tinha se formado junto da beira do asfalto. Comecei a chorar. Ainda mais depois que olhei pra frente e vi que meu chinelo ia cair no córrego. De repente, um senhor começou a correr atrás do chinelo, mas, a correnteza era forte, o chinelo ia mais rápido do que qualquer outra coisa, o senhor corria, dava o máximo de si e o chinelo caiu no córrego. E eu chorei mais alto. E o homem ao me ver chorando desesperado, pulou no córrego. No outro dia o senhor passou no jornal. Entrou nas estatísticas das chuvas de verão. Ele morreu e eu fiquei sem meu chinelo. Eu estava perdido e meu chinelo quebrado!

Por: Danilo Cruz.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Cobrança no boteco do Gordo.

Eu estava no bar, e quando estou no bar estou em casa. E também por que me sinto num altar, meu baralho e meu dominó são como a vela e o santo. No sábado, estava no boteco do gordo e ao meu lado o vizinho conversava com Mauro, e eu conversava com o gordo e ambos tínhamos a satisfação de estarmos ali como se fosse o céu mais perto do mundo. Uma cerveja de leve, minha azeitona sagrada e sol. O vizinho saiu um instante até a calçada pra cuspir e o sol desapareceu. Dois sujeitos estranhos cobrando uma grana, em voz alta, dando prazo de busca e tudo e o vizinho ficou sem voz.
O Gordo achou estranho e preferiu não comentar nada. O Mauro ficou preocupado e o vizinho partiu pra sua casa em passos largos. Eu continuei bebendo minha cerveja que por um momento esqueci. Não fiquei muito assustado, fiquei sem entender, mas, não assustado. Minha cerveja acabou, pedi um conhaque -Pra queimar tudo. Era por volta das 15h00 quando o filho do Mauro chegou no boteco avisando que o vizinho estava morto. Foi encontrado enforcado no seu quarto.




Por: Danilo Cruz.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Paralisia do sono


Momentos perturbadores que nos tiram da realidade, nos carragam para outra dimenção, nos causando medo da morte, medo de nunca mais sair daquela bolha escura, onde não se respira, onde não se pode mover um só dedo. Pesadelo de onde mesmo quando me dou conta que estou, não consigo sair, despertar, clamar por ajuda.
Depois de muito tempo de luta, consegui dominar o tal pesadelo, olhei para mim mesmo, estava fora do ar, interagindo com outros espiritos, pessoas ou sei la eu oque. É uma dimenção profunda, onde nada parece ser sólido, apenas vultos. Um barulho ensurdecedor circunda o local, é o silencio. Não a luz, todos parecem gritar, fantasmas de pessoas próximas. O medo é inevitavel, mesmo quando nos conformamos por alguns milisegundos com aquela realidade. Derrepente descubro uma porta de escape, acordar, mas mesmo parecendo ser a saida, posso lhes afirmar, é a pior parte! É como estar debruçado para o lado de la da ponte e tomar a iniciativa para pular, é como puxar o gatilho,é como se toda a perturbação estivesse ali, entrando como agulhas para dentro do meu corpo, que é de onde saiu. Atravesso camadas e camadas de realidades, até chegar a lucidez total. Acordei, e mesmo podendo sentir o toque da pele, abrir os olhos, pensar que tudo esta bem, ainda não estou tranquilo, tetei analizar tudo que se passou, e com a camiseta, palma das mãos, cabelos e meu rosto inundados de água, não consigo nem piscar. Sobrevivi.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Noite feliz

Madrugada fria e chuvosa, o chinelo batido protege o antigo e machucado pé. Pedro. Assim é chamado o nosso herói por entre os amigos da coleta de recicláveis. Ele está com sorte nesta noite; ganhou alguns trocados, durante o dia, das idosas que recebiam a aposentadoria do mês; sua tática era antiga, abordar as senhoras pedindo-lhes moedas pra matar a fome, e em dia de pagamento, na porta dos bancos, é fácil persuadir os bons corações movidos pelo medo.

Conseguiu comer num restaurante popular, comida barata, gostosa, “pena que é só o almoço” pensa Pedro. O seu estomago que não pensa, mas grita; gritou alto e pediu mais às moças que depositam a ração na bandeja rasa. Depois dos olhares que o culpavam, ele foi servido.

“O presente não espera o amanhã”. Pedro gosta de lembrar dos tempos em que era estudante de filosofia, lembra das discussões na faculdade e sempre diz a si frases soltas ora suas ora dos filósofos preferidos. A filosofia, porém, nesta noite, está na falta de ruídos do estomago, comera pro dia e pra noite.

Com sua carroça sempre a lhe fazer companhia e, pros castigos do profeta camarada dos céus, uma capa de chuva amarela, cor de destaque que evita o choque com os carros acelerados controlados pelo álcool; Pedro vai caminhando e ...

olhando sempre atento aos detalhes da rua, os prédios, os faróis e o olhar mais que atento, olhar de sobrevivência, aos restaurantes. “ah... estes merecem minha atenção”; aguardava, aguarda, aguardará os restos que não cabem mais nas barrigas já cheias; por sorte a comida é negada por uns e oferecida em sacos pretos a outros. Sempre antes do jantar, como que num ritual religioso, Pedro se lembra...


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio,
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão.
Não era um gato.
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Ainda quente, tem de tudo, macarrão, arroz, feijão, pedaços de frutas mordidas e dessa vez, algo raro, um livro.

Mastiga
Engole



pirenco

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Burguês ?!?

Acordou sem deixar a cama, o som da chuva caindo lhe dava vontade de continuar deitado. “Não! Preciso levantar”, pensou. Levantou. 9:32 apontava o relógio; no banheiro, o rotineiro das manhãs, levantar a tampa do vazo, direcionar o pinto e mijar. Com os olhos fechados escuta o barulho da urina bater na água. Lava o rosto e se olha, espantado, se seca. Na cozinha prepara o desjejum, pães e bolachas lhe dão a opção. Ao saborear lentamente os alimentos, recorda o dia passado quando viu um homem, caído no chão, bêbado, à porta dum bar. Não entende como, e por quê, o dono do bar, das pingas e do aparelho de som antigo podia vender tanto álcool a uma pessoa, a ponto da calçada se tornar moradia e a cama quente do homem que ao meio dia dorme, como nunca tivera dormido.
Finda o café, escova os dentes sem esquecer o fio dental. “Agora sim”. Pensa. “estou pronto pra estudar!”. Abre o seu livro preferido e em voz alta lê para si o manifesto comunista.



pirenco

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Olhos furados.

Quando ele chegou aqui no bairro, com aquele sotaque estranho e jeito diferente de andar, não poderiamos imaginar que o rapaz trabalhava com esse tipo de coisa. Todos achavamos, inclusive eu aqui atrás desse balcão que ele era um crítico de arte ou um escritor de renome nacional. Pensava eu que o dito cujo era um membro da academia brasileira de letras. Principalmente pelo jeito de se vestir, muito elegante e sempre, na mão, dois ou três livros. Sem contar quando, quase sem querer, ouvia ele conversar com os ordinários que ficava em frente do meu balcão, sobre poesia e arte. Ele era o único que chegava com aqueles discursos bonitos e refinados, pois eu, de arte só entendia de novela que assistia sempre com minha patroa. E mesmo assim não decorava nome de ator.
Sempre pelo fim da tarde, o homem passava em frente minha venda, mas, naquela sexta ele não passou. Normal, pois poderia estar doente. Ou não iria trabalhar naquele dia, já que tinha ouvido que aquele era o horário de ida ao trabalho do tal. No outro dia, já por volta do meio dia, fiquei sabendo que o mesmo tinha morrido. Sim, morrido. Pior, tinha sido assassinado. Os ordinários que frequentam minha venda disseram que foi uma cliente que o matou. Com duas facadas, uma em cada olho. Eu não entendi muito bem o motivo, mas, os ordinários, fofoqueiros que são, falaram que o sujeito era garoto de programa,prostituto, homem da vida, como queiram, e sua principal moeda de troca eram os livros. Os livros! Disseram que a cliente, ou o cliente, eu não entendi muito bem, pagou a ele com livros de Paulo Coelho, a coleção inteira. E ele achou de reclamar e disse que o acordo não era com livros de Paulo Coelho, mas sim com livros Paulo Freire . Eu só sei que por causa de um desses Paulos o homem perdeu os olhos e viu a vida ir na contramão.

Danilo Cruz para Pura Substância.

domingo, 27 de setembro de 2009

Chego, logo parto!

Aqui chego sem nenhuma novidade, nenhum apreço por coisas muito chamativas ou nenhuma nova prece. Não! Chego aqui para purificar minha alma ou formatar minha cabeça. Chego aqui apenas com o corpo (que continua muito franzino). Chego pra nadar no teu rio, curiar o teu sol e ir à feira. Chego pra tomar suco de genipapo e comer suflê de legumes. Aqui chego e logo partirei... Não antes de tirar fotos de coisas simples, rir de mim mesmo e ser jurado pelos meus mais doces inimigos. Chego, logo parto!



Danilo Cruz

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

os olhos na viela

Qual será a sensação de matar alguém? Sim! Desejo conhecê-la, pois me atormenta o forte desejo da matar um ser. Todas as noites, deparo-me, numa viela, com os olhos mais inquietantes que já vi. As duas esferas no rosto não param de me olhar, não existe um só instante que eu não esteja sendo observado. No meu percurso noturno, caminho lentamente e ele me olha; sempre na mesma viela. Pelas manhãs me pergunto se quando o sol se for ele ainda estará lá. Quero matá-lo de qualquer forma. Faço todo o caminho imaginando como seria se eu tivesse um revolver, não me importaria com o calibre nem tão pouco com o barulho. Pensando bem, seria interessante se houvesse muito barulho no disparo, um tiro que incomodasse os mais velhos ouvidos que habitam as ruas que fazem ligação com a maldita viela. É pena não ter um revolver. Não conheço ninguém que me emprestaria uma arma para esse tipo de serviço. Na rua onde moro há uma venda, uma casa do norte; lá eu sei que vende estilingue. Não sei se um instrumento pra criança matar passarinho resolveria o meu problema, porém toda noite imagino... se eu tivesse um estilingue... o brinquedo inimigo dos pássaros... faria o teste escolhendo a dedos a pedra perfeita. Toda noite, no momento em que um dos meus pés se adianta e entra na maldita viela, ganho a companhia das esferas observadoras. Uma noite dessas pensei nos seres que não conseguem piscar, logo os peixes vieram à cabeça; busquei na memória outro com a mesma habilidade, não encontrei. Não paro de pensar em fechar os olhos que me vigiam. Pelas manhãs busco uma sensação de alivio, não encontro. Não terei sossego enquanto ele estiver vivo. Enquanto ele vive eu morro, estou morrendo todas as noites.




pirenco