segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Olhos furados.

Quando ele chegou aqui no bairro, com aquele sotaque estranho e jeito diferente de andar, não poderiamos imaginar que o rapaz trabalhava com esse tipo de coisa. Todos achavamos, inclusive eu aqui atrás desse balcão que ele era um crítico de arte ou um escritor de renome nacional. Pensava eu que o dito cujo era um membro da academia brasileira de letras. Principalmente pelo jeito de se vestir, muito elegante e sempre, na mão, dois ou três livros. Sem contar quando, quase sem querer, ouvia ele conversar com os ordinários que ficava em frente do meu balcão, sobre poesia e arte. Ele era o único que chegava com aqueles discursos bonitos e refinados, pois eu, de arte só entendia de novela que assistia sempre com minha patroa. E mesmo assim não decorava nome de ator.
Sempre pelo fim da tarde, o homem passava em frente minha venda, mas, naquela sexta ele não passou. Normal, pois poderia estar doente. Ou não iria trabalhar naquele dia, já que tinha ouvido que aquele era o horário de ida ao trabalho do tal. No outro dia, já por volta do meio dia, fiquei sabendo que o mesmo tinha morrido. Sim, morrido. Pior, tinha sido assassinado. Os ordinários que frequentam minha venda disseram que foi uma cliente que o matou. Com duas facadas, uma em cada olho. Eu não entendi muito bem o motivo, mas, os ordinários, fofoqueiros que são, falaram que o sujeito era garoto de programa,prostituto, homem da vida, como queiram, e sua principal moeda de troca eram os livros. Os livros! Disseram que a cliente, ou o cliente, eu não entendi muito bem, pagou a ele com livros de Paulo Coelho, a coleção inteira. E ele achou de reclamar e disse que o acordo não era com livros de Paulo Coelho, mas sim com livros Paulo Freire . Eu só sei que por causa de um desses Paulos o homem perdeu os olhos e viu a vida ir na contramão.

Danilo Cruz para Pura Substância.

domingo, 27 de setembro de 2009

Chego, logo parto!

Aqui chego sem nenhuma novidade, nenhum apreço por coisas muito chamativas ou nenhuma nova prece. Não! Chego aqui para purificar minha alma ou formatar minha cabeça. Chego aqui apenas com o corpo (que continua muito franzino). Chego pra nadar no teu rio, curiar o teu sol e ir à feira. Chego pra tomar suco de genipapo e comer suflê de legumes. Aqui chego e logo partirei... Não antes de tirar fotos de coisas simples, rir de mim mesmo e ser jurado pelos meus mais doces inimigos. Chego, logo parto!



Danilo Cruz

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Silêncio

Não consigo mais suportar o silêncio. Nele tudo me atormenta, nem o tic-tac do relógio posso ouvir porque as pilhas que davam vida ao som pararam. Sem gritos nas ruas, sem o barulho dos carros, sem o avião no céu, não há nada. Não existe som, não há música nesta noite. Não consigo falar, pois não há ninguém com vida neste lugar; se ao menos houvesse uma flor ao meu lado sussurraria para seu pólen palavras soltas, sem importância. Talvez diria como foi o meu dia. Não! Por sorte não tenho uma flor, ela morreria ao ouvir o meu relato. Tenho próximo a mim um espelho, triste objeto que só reflete uma pessoa; se ele pensasse daria uma nova definição ao meu ser. Estou com sono. Quando era criança ouvi uma história de que os sonhos são mágicos; neles você pode fazer o que quiser; tomara que o velho contador de histórias falara a verdade, pois, se assim for no meu sonho vou escutar os gritos de um suicídio.



pirenco

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

os olhos na viela

Qual será a sensação de matar alguém? Sim! Desejo conhecê-la, pois me atormenta o forte desejo da matar um ser. Todas as noites, deparo-me, numa viela, com os olhos mais inquietantes que já vi. As duas esferas no rosto não param de me olhar, não existe um só instante que eu não esteja sendo observado. No meu percurso noturno, caminho lentamente e ele me olha; sempre na mesma viela. Pelas manhãs me pergunto se quando o sol se for ele ainda estará lá. Quero matá-lo de qualquer forma. Faço todo o caminho imaginando como seria se eu tivesse um revolver, não me importaria com o calibre nem tão pouco com o barulho. Pensando bem, seria interessante se houvesse muito barulho no disparo, um tiro que incomodasse os mais velhos ouvidos que habitam as ruas que fazem ligação com a maldita viela. É pena não ter um revolver. Não conheço ninguém que me emprestaria uma arma para esse tipo de serviço. Na rua onde moro há uma venda, uma casa do norte; lá eu sei que vende estilingue. Não sei se um instrumento pra criança matar passarinho resolveria o meu problema, porém toda noite imagino... se eu tivesse um estilingue... o brinquedo inimigo dos pássaros... faria o teste escolhendo a dedos a pedra perfeita. Toda noite, no momento em que um dos meus pés se adianta e entra na maldita viela, ganho a companhia das esferas observadoras. Uma noite dessas pensei nos seres que não conseguem piscar, logo os peixes vieram à cabeça; busquei na memória outro com a mesma habilidade, não encontrei. Não paro de pensar em fechar os olhos que me vigiam. Pelas manhãs busco uma sensação de alivio, não encontro. Não terei sossego enquanto ele estiver vivo. Enquanto ele vive eu morro, estou morrendo todas as noites.




pirenco

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

lamento na gaiola







Os pássaros não cantam; eles se queixam da paisagem.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Por um gosto.

Quando não gosto de minha poesia, faço outra poesia./ Que provavelmente não será publicada./ Nem lida./ Quando leio minha poesia em voz alta./ É minha faca que te corta./ É o que gosto e o que não gosto./ Pois minha poesia, ela é agora, a tua poesia./

terça-feira, 28 de julho de 2009

Cegos que apoiam o golpe militar

As palavras ditas no programa caminhos da economia são perigosas, pois os presentes expressam uma única idéia e esta legitima o golpe militar em Honduras. A historia se repete por não conhecermos o passado. Em 1964 o golpe militar no Brasil, representou uma época de atraso para a humanidade, as torturas físicas e mentais e a censura tiveram papel de regredir o desenvolvimento dos seres como humanos; e o que me entristece na historia de hoje é ver que pessoas que viveram estes tempos passados apóiam o golpe militar em Honduras. Sob a afirmação de defesa da constituição, os golpistas deixam de cumpri-la. Não concordo em nada do que foi dito no programa da rede vida de televisão, no entanto creio que seja fundamental se expressar. Algo que os golpistas fizeram ao expulsar o presidente eleito democraticamente foi censurar os meios de comunicação. Surpreende-me muito não ver comentários de pessoas esclarecidas, como aparentam ser, não relatarem este fato; fico imaginando qual será a intenção do programa em esconder fatos? Qual será a intenção do programa em expressar uma única idéia? Fala-se em ideologia soviética, bolivariana, cubana, enfim fazem criticas sobre estas maneiras de política, alegam que são totalitárias, desumanas e alienantes; Ora, eu pergunto, no que o programa caminhos da economia se diferencia do que critica?
Meu ateísmo não me faz fechar os olhos para Jesus, pois seus pensamentos são fundamentais para o desenvolvimento cada vez maior dos seres humanos. Acredito, sem sombras de duvida, que o compromisso com o social é fundamental para caminharmos sentido à liberdade. Se os defensores do golpe militar conhecessem Paulo Freire... “Com Marx na mundaniedade a procura de Cristo na transcendentalidade”. Que triste é não querer ver. E a história vai se repetindo graças aos cegos pregadores.





o apoio declarado aos golpistas em Honduras no programa de televisão caminhos da economia, da rede vida de televisão, canal ligado às crenças religiosas cristãs; fez com que este texto fosse gerado e enviado aos apresentadores do programa.



pirenco

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Comédia

Pela lei, se perdemos um parente direto,
temos direitos a nos ausentar por 3 dias do trabalho.
quem casa, tem 5 dias.
Quando nasce um filho, a mãe tem licença de 120 dias e o pai ganha 5 dias.
Como se chega à conclusão de que três dias de luto é suficiente?
Por que dois é pouco e quatro é demais?
Seria o primeiro dia para enterrar o morto,
o segundo para limpar os armários
e o terceiro pra chorar?

E depois, a vida continua?!



quarta-feira, 8 de julho de 2009

por entre os vivos

Não sou o Brás, mas também escrevo depois de morto. Meu nome o mundo conhece... todos já ouviram falar em coca-cola, Jesus Cristo e Michael Jackson. Sou o ultimo da lista, porém meu nome é o único que cantou, dançou e bebeu; claro que há também a personagem de Manuel Bandeira, só que ela foi, em vida, diferente de mim, morava em um barraco sem numero; eu morava onde todos sabem: na terra do nunca.
Também troquei de cor. Se tivesse uma chance de falar com o segundo da lista - talvez agora dê – perguntaria o por quê de preto. Sou assim, como o “rei” Roberto Carlos, não suporto preto. O branco é limpo, remete à paz, a tranqüilidade. Juro que perguntaria... por que preto?
Agora que estou aqui neste lugar entre os homens, porém invisível aos olhares mortais, vejo o quanto são falsas as pessoas. São muitas as lágrimas que umedecem o meu caixão de ouro.
Nestas novas andanças por entre os vivos, pude notar que meu pai chorou, e foi sincero. Talvez algum mortal se pergunte, como percebe a sinceridade? Só os mortos a percebem. Papai foi sincero. Claro que há por de traz do sentimento um olhar financeiro que lhe rendeu cinco milhões de dólares pelas lágrimas; mas o que importa este pequeno detalhe agora?
Maldito Kafka; quando o li, ainda preto, comecei a notar um mundo diferente, angustiante. Meu pai aparecia neste mundo como carcereiro da minha cela. Só agora, depois de defunto/escritor, vejo o quanto meu pai é sincero. Se eu pudesse mudar o testamento...



pirenco

segunda-feira, 6 de julho de 2009

...libertação

...Passando pelo corredor, um enorme relógio marcava 13h45, uma mensagem chamou minha atenção.

[...] Tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhação, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dona de mim mesma, solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mão dadas comigo, falar sobre a minha morte [..] (Rubem Alves)

Aquelas "drogras paliativas heróicas" para manter vivo um paciente são do meu ponto de vista, uma violência ao principio da "reverência pela vida."
Porque se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, ele ouviriam dizer:
-Liberta-me!!!!!